07
Ago
08

Auto-retrato

Eu costumo ouvir das pessoas que ainda sou novo. Não concordo. Já fiz bastante coisa na minha vida, nem todas boas, mas todas me ensinaram alguma coisa. Bebi todas as bebidas que conheço, algumas muito, outras uma vez e nem quero ver novamente na frente. Já fumei cigarros, normais e de palha. Comi tudo que podia e queria, excessivamente. Experimentei maconha e não gostei, nem um pouco, e depois comi mais do que excessivamente. Briguei com pessoas que jamais mereceram minha ira e fui condescendente com muitas que mereciam.  Fui mimado por meus pais, tias, amigos e namoradas. Menti diversas vezes, sobre diversas coisas, para irmãos, pais, amigos, namoradas e isso me fez perder grandes oportunidades e muita confiança que até hoje não reconquistei.

Roubei das pessoas verdades que elas deviam saber por direito, omiti fatos importantes e isso me custou muita dor e muito sofrimento. Tentei sofrer sozinho, mas em vão percebi que ninguém pode viver realmente sozinho e que sociedade é um conceito diferente do aprendido em ciências sociais, e mais importante que o conceito de família vai muito além da compreensão de nós humanos.

Contei histórias que jamais aconteceram, e deixei de contar versões reais de algumas que ocorreram, algumas vezes por medo da reação de outras pessoas envolvidas. Mas sempre, indagavelmente sempre me ferrei no fim das contas.

A mentira é um vício difícil de ser superado, é a pior droga que pode existir, e não faz bem, em momento algum.

O pior de tudo, é que na maioria das vezes, mentia por um naco de atenção. Sempre fui viciado em atenção e por ela me viciei na mentira. Queria me sentir importante, queria ser o destaque das festas, o cara mais legal de todos.

Nunca percebi que atenção era algo que naturalmente eu sempre tive. Destaque é algo que está impregnado em mim e não porque eu quero, mas porque faz parte do meu caráter ser engraçado, visado, sendo humilde de verdade, sempre consegui isso sem esforço.

Mas aí vem o Elogio. E ele te faz querer mais e mais e mais. Sempre quis mais atenção do que tinha, e pra isso inventava histórias e acabei me perdendo no meio de tudo isso.

Passou, cresci. Hoje continuo tendo atenção em demasia, mas consigo controlar a situação. Acho que tudo acontece por um motivo. Hoje eu vi claramente o motivo disso tudo.

Deus, um cara ao qual nunca dei muita confiança, me deu um presente que eu jamais esperava receber. Um sobrinho, uma vida, Deus me deu a maior atenção que eu podia receber. Ele esperou eu atingir tamanho grau de maturidade e enviou por meio de dois anjos ( Caco, Chá eu amo vocês ) um regalo que eu vou amar mais que tudo que já amei. Sempre acreditei que minha vida seria diferente da dos outros. Nunca me imaginei cercado de crianças me enchendo o saco. Mas quer saber, que encham à vontade, pois eu esvazio para eles poderem fazer tudo denovo.

Caco, chá obrigado. O presente é na verdade de vocês, mas eu me sinto presenteado também.

E que venha meu sobrinho, menino ou menina.

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15
Jun
08

O Carteiro de Liechtenstein

Pentok era um homem já feito. Estava com 34 anos e durante toda sua vida quis ser um arqueiro. Não conseguiu. Enxergava muito mal e não acertava os alvos, nunca passou em um teste. Quando tinha 20 anos, precisou começar a  trabalhar. Seu pai Atros o explusara de casa, como era costume em Liechtenstein para garotos nessa idade que não haviam entrado no serviço militar. Foi então que o rapaz se candidatou a uma vaga no serviço de entrega da cidade. Era inteligente, demais até para aquela profissão, mas aceitou a condição e se destacou. Em poucos anos conseguiu algumas promoções e já entregava as encomendas especiais no castelo de Glastron, não precisando nem mesmo se identificar nos portões. Era conhecido por sua agilidade em entregas e controlava bem seu cavalo.

Durante um inverno rigoroso, Pentok recebeu a incumbência de entregar uma lança dourada para o capitão dos lanceiros dentro do castelo. Pegou seu cavalo, e com o pacote em mãos foi fazer seu serviço. Adentrou os portões como de costume e se dirigiu para a área de treinamento militar. Ali chegando viu alguns homens encapuzados na entrada de uma torre negra. Dirigiu-se ao local e foi barrado por um dos homens que disse:

– Aonde vais rapaz?

– Tenho uma entrega a fazer pessoalmente ao capitão Trinom dos lanceiros.

– Pois deixe aqui a entrega e vá! Ninguém que não seja militar adentra a torre – disse o outro guarda

– Não! – exclamou Pentok  -fui ordenado a entregar isso pessoalmente e só assim sairei daqui.

Um dos guardas adentrou a torre e poucos minutos depois, saiu afirmando que Pentok estava autorizado a entrar. O rapaz ficou espantado com a escuridão e o cheiro de umidade dentro do local. Não imaginou que alguém pudesse viver ali. Mas sabia como eram mos militares e deixou passar o pensamento.

Subiu alguns lances de escada e chegou a uma porta. Bateu e recebeu a autorização a entrar. O homem que lhe esperava era grande, muito grande e de uma força descomunal. Careca e com uma cicatriz na testa, o homenzarrão se dirigiu ao rapaz, pegou o embrulho de suas mãos e disse:

– Pode ir agora carteiro, já fez seu serviço.

Pentok não queria discussão, portanto virou-se, mas antes de sair viu encostada em uma das paredes do recinto uma garota de semblante triste. Vestia um vestido escuro, com detalhes dourados. Era linda, mas a tristeza a estava consumindo e isso era visível.

– Saia rapaz, não vou repetir – o capitão repetiu.

Pentok saiu rapidamente desceu as escadas, subiu em seu cavalo e saiu dali às pressas. Durmiu mal aquela noite. Pelo frio e pela perturbação da imagem daquela garota. Para piorar o inverno ficou mais rígido e não havia possibilidades de sair de casa.

Pois o rapaz ficou o resto do inverno pensando na garota. Não conseguia tirá-la da cabeça e havia decidido que voltaria à torre e encontraria uma maneira de tirá-la dali.

Subiu novamente em seu cavalo, e chegou às portas da torre. Tudo estava diferente. Diversos homens treinavam golpes de lança em frente à construção e acima de um pequeno palanque estava o capitão observando. Pentok se dirigiu a ele e esperou que o home  lhe autorizasse a subir. Dessa vez o guerreiro tinha o semblante mais calmo e até chegou a sorrir.

Sem delongas, o carteiro lançou:

– Trinom, preciso lhe perguntar, aquela garota, que estava com você na sala da torre. Ela…

– Tiara? O que tem ela?

– Ela, bem…  ela parecia triste, muito triste.

– Pois deveria estar, eu matei o irmão dela e trouxe-a como escrava. Mas ela não me agradou. Coloquei-a como servente geral nos aposentos do rei, mas ela ainda me pertence.

– Ela é sua escrava? – Pentok indagou com os olhos marejados

– Sim rapaz, ela é. E continuará sendo. Não adianta fazer qualquer proposta, já recusei as melhores por ela. Com certeza você não poderá fazer uma melhor.

– Eu lhe dou qualquer coisa Trinom. O que você pedir. Não tenho muito dinheiro, mas consigo o que for. Essa mulher está tirando meu sono, não durmo mais em paz desde aquele dia.

– Ahhhh   hahaha Está apaixonado carteiro? Um carteiro apaixonado por uma escrava. Ouviram lanceiros!!! Esse homem quer levar com ele uma das minhas escravas. Disse que me consegue o que for. O que vocês me dizem?

Diversos gritos vieram dos guerreiros, mas Pentok não se abateu, nem se assustou. Estava disposto a conseguir o que queria.

– Diga o que quer Trinom e eu buscarei onde for, pelo preço que for.

– Como e mesmo seu nome rapaz?

– Pentok, Pentok Piginos!

– Pois então, já que você está tão disposto a conseguir essa escrava suja Pentok, eu lhe darei sua chance. Na montanha lateral ao castelo, há uma trilha que leva a uma cachoeira. Ali vive um antigo combatente que me venceu uma vez e me levou algo que eu prezo muito, um anel de safira branca. Se conseguir este anel para mim, leva a garota e moedas de ouro para seguir sua vida. Mas já lhe aviso, o homem que vais encontrar é mais forte do que podes suportar e será impossível para você tirar o anel dos dedos dele.

Um fino sinal de felicidade inundou o coração do jovem carteiro. Não lhe importava quão forte era seu adversário ou qual seria a dificuldade em vencê-lo, traria o anel para Trinom e ficaria com Tiara de qualquer maneira. O novo aventureiro subiu em seu cavalo e em poucos minutos estava na entrada da trilha para a cachoeira e bem provavelmente para sua destruição. Adentrou o caminho sem medo no coração e sem cautela na afobação. A estrada era curta e em uma hora, Pentok chegou à cachoeira e pode vislumbrar de longe, próximo a uma casa feita de palha e madeira, um homem de proporções abissais. O grande guerreiro estava de costas para e quebrava algumas toras de madeira – com as mãos – sem uso de machado.

Pentok se dirigiu ao local onde o gigante estava, e antes mesmo de chegar à metade do percurso, viu que o homem que estava de costas agora olhava fixamente para ele, segurando fortemente uma das toras em sua mão, de forma ameaçadora. O rapaz ergueu a mão em sinal de paz, e continuou até chegar de frente para o guerreiro, que agora se mostrava ainda maior do que parecia.

– O que quer aqui rapaz?

– Meu nome e Pentok Piginos.  Venho com uma história e um pedido de misericórdia.

– Pois desça do seu cavalo, me conte sua história!

O carteiro desceu e sem cumprimentos pessoais, começou a contar toda série de acontecimentos. Quando mencionou o nome de Trinom, viu um sorriso de satisfação na face do ouvinte. Mas continuou a desenrolar sua epopéia. Ao final de sua história ouviu o homem dizer:

– Pois então Pentok. Você foi mandado aqui para me matar e levar de volta o anel daquele sujo do Trinom, e realmente acredita que fará isso com tamanha facilidade? Direi-lhe duas coisas garoto. A primeira é que a história que sabe é falsa. Eu não derrotei Trinom, na verdade ele nem chegou a lutar comigo, por isso eu tenho o anel. Em sua loucura para chegar ao alto comando dos lanceiros, aquele covarde matou meus dois irmãos, acusando-nos os três de conspiração. Quando eu fui atrás dele, ele enviou uma tropa inteira da guarda particular do rei para me barrar, dizendo que eu não precisava perder a vida e me deu um anel e uma carta de garantia. Enquanto eu estivesse com o anel de safira branca, ele não poderia vir atrás de mim. Pois ocorre que naquela época eu era o chefe dos lanceiros e nenhum dos meus homens colocaria um dedo em mim.  Hoje as coisas são diferentes, se ele me tirar essa garantia, virá com todos seus homens para cá e me matará. Tudo isso, porque quando eu era chefe dos lanceiros, não permiti a Trinom uma posição alta de comando, pois sempre percebi sua ganância e crueldade. Mas ele sempre foi muito chegado ao rei e não foi difícil convencer o velho de que éramos traidores. A segunda coisa que lhe direi será que não desgosto de você, mas se tentar ficar com o anel, serei obrigado a matá-lo.

O carteiro sentiu raiva. Percebeu que estava sendo usado, arriscando sua vida por um porco sujo e que era até provável que nem recebesse o que lhe foi prometido. Foi então que teve uma idéia

– Qual seu nome guerreiro? – Pentok perguntou

– Nesmirok

– Pois Nesmirok, você por acaso teme o chefe dos lanceiros do castelo de Glastron.

 Trinom estava em seu momento de descanso, deitado na areia em frente à arena de treinamento, pensando em suas vitórias e em suas riquezas. De repente, sentiu o chão tremer e levantou os olhos e viu chegando numa velocidade aterrorizante, o cavalo do carteiro. Fixou os olhos e pode ver que havia duas pessoas montadas. Percebeu tudo em um milissegundo e tentou correr para os portões da torre negra, não houve tempo. Antes mesmo de gritar por socorro foi surpreendido por uma pequena lança que traspassou seu ombro esquerdo levando-o ao chão.

Logo após, foi literalmente erguido do chão pelo gigante Nesmirok. Foi então que o carteiro lhe disse:

– Sabe Trinom, você realmente tinha razão. É impossível tirar o anel dos dedos dele, mas você só disse que queria que eu trouxesse o anel até você. Pois então, o anel está aqui como eu lhe prometi.

O chefe dos lanceiros olhou com ódio para o carteiro. Como podia ter sido vencido por um garoto mirrado e sem nenhum treinamento militar. Voltou seus olhos para Nesmirok, mas não houve tempo para palavras. O grande guerreiro atravessou o peito de Trinom com uma lança dupla, matando-o quase que imediatamente. Em poucos segundos o Pentok e o gigante estavam cercados por diversos lanceiros e arqueiros. Foi então que Nesmirok ergueu o anel e a carta de garantia e bradou:

– Lanceiros de Liechtenstein, hoje vocês voltam a receber ordens de seu antigo comandante. Abram caminho para que o rapaz passe e leve com ele o que ele tanto preza.

Todos fizeram um corredor e Pentok passou por eles com seu cavalo, se dirigiu à torre e subiu correndo as escadarias. Escancarou a porta do aposento e viu Tiara, sentada quieta em uma cadeira. O carteiro se aproximou e ajoelhou-se em frente a garota e olhando em seus olhos lhe disse:

– Sei que não posso lhe dar a vida de seu irmão de volta, mas posso trazer felicidade para os momentos futuros. Estou aqui para levar você comigo, desde o dia em que vim aqui e a vi não consigo dormir pensando na sua solidão e na sua tristeza. Acompanhe-me Tiara e eu prometo que jamais se sentirá sozinha novamente.

A mulher olhou fundo nos olhos do rapaz e sorriu. Levantou-se  e abraçou  seu salvador. Chegou com sua boca próximo ao ouvido do rapaz e então disse:

 Por quê você demorou tanto?

Lágrimas saíram dos olhos de ambos. Pentok e Tiara saíram da torre e se dirigiram para a casa do carteiro, onde ele cuidou dos ferimentos dela e dos próprios.

Poucos dias após o ocorrido,  Pentok recebeu um pequeno pacote em sua casa. Uma caixa pequena e leve. Abriu-a e encontrou ali o anel de safira branca com um bilhete que dizia.

“ Que seja agora apenas um adorno e não mais a chave para a liberdade de alguém “

16
Abr
08

Amigos e amigos!!!

É interessante, existem amigos e amigos! Eu sei que esse chavão é bem típico, mas é real.

Tem aquele amigo (a) que ta sempre brigando com você, enchendo o saco por tudo aquilo errado que você faz. Que saco! E logo ele que deveria apoiar sempre!  Será?

Tem aquele que nem sempre está perto, mas nunca está realmente longe. Podem passar 10 anos sem se ver, mas o abraço de reencontro é mais sincero do que muitos outros.

Tem amigo(a) que só está perto de você quando você vale pra alguma coisa, mas quando perde o valor, te descarta como papel.

Tem uns que brigam com a gente, e nem olham na cara, mas a maior vontade deles e vir e nos dar um baita abraço, mesmo estando com a razão.

Tem outros que a gente tem que ficar convencendo de que são amigos. É aquele que você fica ligando o dia inteiro pra ir numa festa, ele(a)  diz que vai, mas não aparece. No outro dia vem te perguntar por que está estranho com ele(a).  Você diz que está estranho porque ele não foi no churrasco e ele vira e diz “ Eu tinha motivos para não ir “ . Aí você fica ainda mais puto e tem vontade de perguntar “ E pra ir você não tinha NENHUM?, Nem sabendo que eu estava lá? Que estava te esperando? “, mas se cala e sabe que nessas horas não vale o esforço. Algumas vezes acaba desistindo da amizade, em outras acaba desistindo da pessoa!!!

Tem os mais relaxados, só querem saber de te amolar, te inventam uma porrada de apelidos, mas gostam mais de você do que muitos acima citados. Alguns desses te acompanham pro resto da vida e se mostram pessoas fantásticas.

Tem os falsos, que sorriem, te abraçam e assim que você vira as costas, falam de todos seus defeitos e inventam uma enxurrada de mentiras sobre sua vida.

E por final tem o mais difícil. Aquele que te ama, mas ama de verdade. Que passa um aperto pra você não ter que passar. Sacrifica alguma coisa para o seu bem estar.  Perde o sono, perde a  festa,  perde um dia de atividade, perde uma hora de bar pra chegar mais tarde com você, te espera onde for, quando for, como for, e sozinho, pra você não ter que ir também sozinho a algum lugar. Arrisca um monte de coisas, perde algumas delas,  algumas indefinidamente, e ainda assim não reclama disso. Sofre quieto, espera mudanças que sabe que não vão vir. Força o coração a esquecer tudo, menos você. Te dá um tapa pra você não tomar um mais forte. Chora com suas perdas. Ri das suas alegrias. Se preocupa mais que você com suas preocupações. Conta os dias para sua volta de uma viagem.  E ainda assim, mesmo  que ganhe apenas um olá de retorno, fica extremamente feliz com sua presença.

Ainda assim,  machucamos esse amigo (a) todo dia um pouquinho. Ainda assim não respeitamos ele(a).

Por isso que eu digo, tem amigos e amigos!!!  Qual deles é você?  Qual deles você quer pra si?

 

Por Gabriel Lucas Souza

15
Abr
08

Possessão

Francine era uma garota extremamente possessiva, tinha ciúmes de tudo que estava próximo a ela. Seu maior objeto de possessão era seu filho Igor. Só tinha um e ninguém o tirava de perto. Estava separada há algum tempo,pois seu ex marido não suportou o gênio infernal da moça. Só permitia que o pai visse o menino por questões judiciais, senão, negaria qualquer visita

Já fazia alguns meses, estava tentando novamente namorar. Tinha um pequeno problema, não deixava o filho com ninguém,  então aproveitava os fins de semana que ele estava com o pai para sair um pouco, ainda assim ligava frequentemente para a casa do ex para saber como estava o garoto. Conseguia alguns momentos agradáveis com alguns rapazes, mas nada fixo e estava começando a ficar cansada e deprimida.

Conversou com uma das poucas amigas que tinha e a mesma lhe indicou uma cartomante ( Cigana Dandara ), que assegurou ser fantástica. Francine não era muito chegada nessas coisas, mas estava tão carente e chateada que decidiu que não custaria nada.

 

Ligou para Dandara na mesma hora e marcou um horário para dali a dois dias. Estava ansiosa e alegre pela possibilidade. Como não era um fim de semana, levou consigo seu filho. Chego no local onde Dandara atendia e sentiu um ar aromatizado, e ao mesmo tempo  diferente.

Entrou passando por cortinas leves e transparentes, de diferentes cores. Imaginou que seria recebida por uma mulher toda maquilada, sentada numa mesa com uma bola de cristal a sua frente. Nada disso. A cigana estava sentada no chão em uma almofada grande e várias outras coloridas estavam vazias. Não havia véu ou excesso de cores no rosto da mulher. Ela anda disse, ofereceu as almofadas para que mãe e filho se sentassem.

Assim que os visitantes se sentaram Dandara focou seu olhar em Igor e uma lágrima saiu de seu rosto. Ela então olhou para Francine e disse:

– Sei o motivo pelo qual veio, mas isso não tem importância nesse momento! Você deve libertar mais o garoto, caso contrário irá perdê-lo para sempre!

Francine assustou, se levantoua e agarrou forte a mão do menino e saiu arrastando-o para fora. Estava extremamente irritada, nada tiraria dela o garoto, nem mesmo aquele crápula do ex-marido.

Pouco antes de sair, Igor olhou para trás e viu Dandara ainda chorando.

O fim de semana chegou e com ele veio uma briga. A mulher ligou para o pai do menino, avisando que esse fim de semana eles iriam a uma festa juntos e que assim pai e filho não poderiam ficar juntos dessa vez, depois pensaria em algo para não permitir definitivamente que ambos se vissem. Sua possessão estava no auge. O rapaz reclamou, dizendo que tinha o direito de ver o filho, mas a moça nem o ouviu e desligou o telefone antes mesmo de se despedir.

 Na verdade, Francine tinha um encontro naquela noite, mas já havia planejado tudo. Deixaria o filho sozinho  depois que ele dormisse. Não iria demorar mais que duas horas e sendo assim não via problema algum.

Esperou o garoto dormir,  se aprontou, fez um café as pressas e saiu. Chegou no local indicado para o encontro e lá estava seu príncipe. Avisou-o que teria de ser rápido e assim foi. Menos de duas horas depois Francine estava a caminho de casa.

Mas aí veio o baque! Chegando próximo à entrada, viu fumaça e fogo. Além de vários vizinhos amontoados em frente a sua casa. Parou o carro abruptamente e saiu correndo em direção }à muvuca. Foi barrada por um de seus vizinhos, que em meio a palavras confusas dizia alguma coisa sobre explosão e sinto muito, é triste.

Empurrou o rapaz e continuou a correr em direção a entrada de casa. Foi barrada novamente, agora por um policial:

– Eu moro aqui – gritava – meu filho está La dentro, meu filho, Igor – continuava a gritar, na esperança de que seu filho ouvisse e viesse a seu encontro.

– Me desculpe minha senhora, mas ninguém pode entrar, sinto muito pelo garoto, os bombeiros chegaram o mais rápido que puderam.

– Sai da minha frente, eu quero meu filho, Igor, Igor – Francine não parava de gritar

Um homem do corpo de bombeiros chegou, e falou com a mulher:

– Me acompanhe senhora por favor!

Francine estava com as pernas tremendo, fez uma força descomunal para se manter em pé e acompanhar o oficial. Não acreditava no que estava acontecendo. Chorava copiosamente e sentia uma dor que nunca sentira antes. Foi se dirigindo para onde o bombeiro caminhava,  e quase desmaiou quando viu, deitado numa maca, segurando um bichinho de pelúcia, seu seu filho , Igor.

A mulher correu em direção ao pequeno e o abraçou, nem pensou nos ferimentos visíveis que o menino tinha. Foi afastada por um dos paramédicos, que lhe disse:

– Deixe ele um pouco quieto, ele ainda está muito machucado. A senhora têm muita sorte, o rapaz é forte.

– Você está bem filho? 

O garoto a olhou e disse:

– Estou mamãe. Eu estava dormindo e ouvi alguém me chamando no jardim, me levantei, senti um cheiro estranho e corri para onde estava a voz. Cheguei lá e achei estranho. Não sabia que você tinha saído e muito menos que agora estava chamando babás. Ainda mais aquela moça que você pareceu odar.

– Que moça meu filho! Que babá, eu não chamei babá nenhuma!

– Como assim mamãe, ela estava no jardim, aquela cigana! Dandara!

Francine

Não ouviu ou viu mais nada! Desmaiou como se o filho a tivesse  dado uma panelada na nuca.

Acordou na cama do hospital, com o filho sentado numa cadeira ao lado e um vaso de flores na cômoda. Abriu os olhos devagar, olhou o filho e o mesmo veio lhe dar um apertado abraço, depois o garoto, pegando o vaso de flores anunciou:

– São para a senhora mamãe! Chegaram 15 minutos depois que você chegou aqui.

Francine estranhou a rapidez, pegou as flores na mão. Junto com elas havia um cartão. Abriu-o e então leu:

“ ESSAS FLORES SE CHAMAM PERVINCA, QUE SIGNIFICAM  LEMBRANÇA ETERNA,  DENTRO DO VASO HÁ UM ENVELOPE COM UM MEDALHÃO QUE SIGNIFICA VIDA NOVA! ESPERO QUE SAIBA FAZER PROVEITO DOS DOIS.”

Ass. Dandara.

Francine chorou, olhou para o filho e chorou.

Saiu do hospital no dia seguinte e  decidiu que ia mudar. Chegou em casa, pegou uma mala e colocou as roupas do filho e mesmo sendo no meio da semana informou o garoto que iria levá-lo para ver o pai.

O menino sorriu, um sorriso dolorosamente sincero e disse:

– Não, hoje não mãe, hoje eu quero ficar com você e só com você!

11
Abr
08

Gordo é uma merda

Eu sou gordo. Gordo mesmo sabe! Aquele cara grande e bochechudo! Esse sou eu. E a máxima é valida. Gordo é uma merda! Não a pessoa, mas o estado!

Só quem é ou já foi rechonchudo sabe como é!

Há um tempo  fui comprar roupa numa dessas lojas de departamento e uma das atendentes veio ao meu encontro. Me perguntou o que eu desejava e após saber que estava procurando por camisetas me levou ao setor em questão e então, provavelmente numa tentativa de me agradar ela lançou:

– Qual seu tamanho querido? M?

Aquilo me fez ter duas vontades. A primeira era perguntar se ela estava tentando me ganhar como cliente, a segunda era dar-lhe um soco na fuça e sair da loja. Me contive e respondi:

– Só se for M de maior, porque se for de médio não cabe não.

Ela entendeu bem o recado e me trouxe uma dúzia de camisetas GG. Ao experimentá-las pensei que ela tivesse se enganado e trazido as PP. Eu me sentia como um sonho de valsa. Convexo no centro e apertadinho nas pontas.

Desisti revoltado e como um bom paulistano fui dar uma volta no shopping. Resolvi, como todo gordo, comer em um fast food. Quando estava fazendo meu pedido a atentende me pergunta:

– O senhor deseja, por mais 2 reais levar o seu pedido como extra grande?

Eu queria morrer naquela hora, olhei bem na cara do ser vivo a minha frente e com a maior educação que  podia ter respondi:

– Não obrigado!

Acabando meu lanche ( entre os quatrocentos que todo gordo faz ) , resolvi tentar outra loja de roupas. Claro, mesmo resultado e dessa vez as camisetas eram XG!!!!!!  Meu Deus, será que as pessoas sabem o que é GRANDE???? Com certeza não. Comecei naquele momento a pensar que isso tudo é uma tática para exterminar nós, os fofinhos! Já estava vendo até leis sobre peso máximo permitido! Olhava desconfiado para as pessoas a minha volta, com o mesmo olhar de quando um obesinho está comendo e alguém se aproxima da vitimada refeição!

As pessoas com certeza nada entendiam do meu olhar, mas eu sabia que aquilo tudo era uma conspiração. Não queria proximidade com aqueles adipoassassinos.

Me contive novamente e me dirigi ao estacionamento do shopping. Chegando lá vi aquelas vagas especiais para idosos e deficientes físicos e já comecei a me incomodar com a probabilidade da idéia de num futuro próximo haver vagas mais largas, para gordos ( como se o carro acompanhasse o dono ).  

Entrei em meu carro ( com dificuldade, claro ) e fui visitar um antigo amigo. Chegando em sua casa fui recebido por meu antigo apelido:

– Goooooooooooooooooorrrrrrrrrrdooo  que saudades!!!!!!!!!!!!!!!!

Porra existe algo mais sem criatividade do que chamar um gordo de gordo? Não claro que não. Que merda use pelo menos um dos clássicos ( momo, elefante, leitão, pêra, bola, rolha de poço ). Mas gordo não! É tão óbvio que chega a ser estúpido!

Bom, após uma agradável conversa   com meu caro amigo ultra criativo, fui pra casa ( já era hora da janta, que pros gordos equivale a hora da novela para as dondocas ). Chegando em casa minha mãe me lança:

– Filho tem lasanha no forno

PORRRRRAAA!!  Lasanha??  Que sacanagem!! 

Comi um pedaço médio ( gigante ) e quando fui colocar o prato na pia minha querida mãe tem a pachorra de dizer:

– Come mais filho!! Você comeu tão pouco querido! Está meio magrinho!!

– Mãe – digo eu bem calmo – precisamos ir ao oftalmologista!

– Claro filho, você quer trocar de óculos? – ela me pergunta

– Não mã! É pra você mesmo! A senhora já deve estar com catarata, porque no mínimo um terço da visão você já perdeu!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ela fez uma cara de brava. Subi para tomar banho e é nessa hora que vem o problema. Me olho no espelho e como todo gordo faz para se acomodar pensei.

“ NÃO TO TÃO GORDO ASSIM, SEGUNDA FEIRA EU COMEÇO UMA DIETINHA!!! “

 

Por Gabriel Lucas Souza

07
Abr
08

O Pequeno Cofre

Mário era um rapaz trabalhador, era veterinário e passava maior parte de seu dia visitando fazendas por todo estado de Minas Gerais.  Amava a profissão, até pensara em largar a faculdade por problemas pessoais. Mas seguiu em frente e formou-se um bom veterinário. Especializou-se em grandes animais e seguiu a área de reprodução. Era uma parte promissora da veterinária, o rapaz era bom, tinha contatos e se deu bem. Estava ganhando dinheiro, muito dinheiro. Já havia viajado bastante. Com muito trabalho, conseguiu guardar dinheiro suficiente para comprar um objeto de seu desejo desde a adolescência. Um anel que fora de seu falecido avô e que há tempos estava nas mãos de outra pessoa. Mário fez uma oferta imperdível e arrematou o objeto. Não usava o anel, apenas o guardava numa pequena caixa em sua casa.

De tempos em tempos, o rapaz recebia alguns pedidos para ir a fazendas no estado de São Paulo. Em uma dessas visitas, após a rotina, resolveu tomar uma cerveja com um velho amigo de faculdade que morava numa cidade bem próxima à fazenda onde ele estava.

Em menos de uma hora ambos estavam sentados tomando cerveja. O anfitrião convidara Mário a conhecer as dependências da casa. Passaram por todos os cômodos e foram visitar a parte externa.  Ali Mário se deparou com alguns cães. Não simpatizava muito com eles, nunca fora muito amigo de cães ou gatos. Reparou que uma cadela estava num canto, amamentando sua cria. Apesar de ter achado o animal de uma beleza surpreendente, não se aproximou. Seu amigo vendo a admiração escondida lançou:

– Leva um pra você!

– Não! Nem brinca, não tenho tempo pra cuidar de cães

– Que isso, deixa ele na sua chácara com o caseiro! Esses cães se viram bem, além de serem ótimos cães de guarda.

– O quê? Essa coisinha de nada cão de guarda?  – Mário riu discretamente – Nunca!

Entraram novamente e continuaram a conversar na mesa.  Tomaram diversas cervejas e sendo tarde, o rapaz dormiu na casa do amigo. Logo cedo no outro dia, entrou em seu carro e viajou novamente para sua cidade. Precisava cuidar de alguns papéis. A primeira coisa que fazia sempre que entrava em casa era verificar se caixa e anel estavam ainda ali.

Uma semana depois, resolveu ir para a chácara descansar. Ali chegando foi recebido pelo caseiro que lhe disse:

– Doutor, chegou uma encomenda ai pro senhor!

– Encomenda Eriberto? – assim chamava o caseiro – Mas eu não pedi nada!

– Pois chegou uma pro senhor e óia, é demais por bonita viu!

Entraram rapidamente e qual não foi o susto do homem ao ver logo na entrada de sua casa um pequeno cachorro, que ele obviamente sabia muito bem de onde tinha saído.

Gostar não gostava, mas não faria desfeita ao amigo. Mas decidiu, fora de casa o animal ficaria. Não entraria por nada nesse mundo, faça chuva ou mesmo neve.

O tempo foi passando e Mário foi se apegando demais ao pequenino. Já levava Jack – como chamava seu cão – para as visitas às fazendas e educara bem o animal.

Mas o tal papo de cão de guarda não colou. Jack não podia ouvir um estourar de fogos que corria e se escondia embaixo de qualquer lugar que pudesse. O rapaz ria, mas não se importava.

Após algum tempo, resolveu levar o cão para sua casa na cidade. Tudo bem, dentro de casa sim, mas encima da cama jamais, pensava consigo mesmo. E novamente o animal atendeu às expectativas. Não fazia bagunça e sempre recebia o dono com a maior felicidade, com sua bolinha de tênis na boca, louco para brincar. Mas certa vez, Jack resolveu receber seu proprietário com nada mais nada menos do que a tal caixa entre os dentes.

Mário ficou louco, gritou com o cão e lhe deu diversos tapas. Ameaçando deixá-lo para fora de casa caso ele fizesse aquilo novamente. Como sempre o animal correu e se escondeu.

No dia seguinte o veterinário precisava visitar uma fazenda bem próxima e como castigo resolveu não levar Jack para o habitual passeio.

Saiu de casa às pressas e foi a seu destino. Fez tudo que deveria fazer e correu de volta para casa a fim de descansar antes do próximo compromisso.

Chegando em casa, Mário segurou o coração na boca. O portão de entrada estava escancarado  e era evidente que sua casa fora invadida. Entrou correndo e foi ao mesmo lugar de sempre. Olhou encima da lareira e não viu a bendita caixa. Os móveis estavam todos revirados, objetos no chão, vidros quebrados, geladeira aberta. O rapaz nem se lembrou de seu animal. Ficou ensandecido procurando em todos os locais pela caixa. Após quase uma hora sem sucesso, desistiu e sentou-se no sofá para se lamentar.

Foi quando ouviu um leve choro vindo do quarto. Na hora se lembrou de Jack e correu para o recinto, mas nada viu. Ficou desesperado, imaginou que pela decepção estivesse tendo ilusões. Seu cão era tão covarde que provavelmente fizera até festa para os visitantes indesejados. Mas no fim do pensamento ouviu novamente um choro, vindo do banheiro do quarto. Correu para lá e na primeira olhadela nada viu, mas se agachou e olhou embaixo da pia. Lá estava Jack. O animal estava transtornado, virado com o rosto para a parede, tremendo por inteiro.

Mário chamou-o pelo nome, Jack se virou num espasmo de felicidade e correu na direção do dono. Nessa hora, Mário pode ver entre os dentes do animal, agora um pouco amassada a caixa que tanto procurara. Abriu-a e lá dentro estava o valioso anel de seu avô

O rapaz riu de felicidade,  e riu da cara de Jack, que o olhava com as orelhas abaixadas, só esperando pelo tapa.

31
Mar
08

Golpe da sorte

Na zona rural de Itamambi, havia apenas duas fazendas produtoras de leite. Uma delas era a grande Tourinhos, comandada por um homem conservador, porém visionário, o senhor Adamastor Forte. A  outra , a pequena  Santa Bárbara, que até pouco tempo era comandada por Robério Baio. Robério falecera e em seu lugar ficara seu filho João Baio. 

Numa perspectiva simples, era como se a Tourinhos tivesse o tamanho e a produção dez vezes maior que a da Santa Bárbara. Fora isso havia uma antiga briga entre as famílias. Os Baios acusavam os Fortes de terem roubado parte de seu terreno e com isso conseguido aumentar a produção.

O objetivo de Adamastor era acabar de vez com o concorrente, findar a vida da Santa Bárbara e ter o domínio na produção leiteira de Itamambi. E o homem estava conseguindo. Nos últimos anos, além de aumentar sua produção com a compra de novas novilhas de uma raça superior,  havia se beneficiado com a morte de algumas vacas de seu rival em virtude de uma praga.

Adamastor sabia fazer as coisas. Tinha pulso forte, ótimos equipamentos,  conseguia bons preços em seus produtos, barganhava fretes e com isso tinha um alto lucro. Já João recebera a fazenda em déficit pela maneira como o pai a levara.  Não que fosse culpa de Robério. A falta de bons equipamentos e a pressão do concorrente não lhe dava outras alternativas a não ser aceitar preços impostos pelos compradores.

Na Tourinhos tudo tinha organização. Peão que fosse pego fazendo qualquer coisa fora do protocolo era mandado embora e outros peões ficavam de olho para que o empregado demitido não voltasse para prejudicar os animais da fazenda como vingança. Na Santa Bárbara as coisas não tinham tamanha estruturação.  Os próprios  proprietários eram encarregados da ordenha, e três peões auxiliavam.

Certo dia Adamastor estava rebanhando as vacas encima de seu cavalo, um Mangalarga maravilhoso e muito forte de nome Trator, quando viu um homem todo sujo e com as roupas rasgadas adentrar a porteira da fazenda e se dirigir a ele. O homem estava machucado, cheio de escoriações e apático. Adamastor de dirigiu ao peão a seu lado e disse:

– Vá lá ver o que aquele trapo quer por aqui!

O peão foi e após alguns instantes chegou em companhia do senhor que acabara de chegar. Adamastor então disse:

– O que lhe aconteceu homem?

– Senhor Adamastor, eu vim pra essas bandas para comprar algumas novilhas para minha fazenda que fica ao norte daqui, bastante distante, na cidade de Montana. Trouxe comigo apenas a roupa do corpo , o dinheiro necessário para a negociação,  meu aparelho celular e um capanga. Pois ocorre meu caro, que fui enganado. Quando cheguei a meu destino, fui cercado por diversos homens a cavalo que além de me surrarem, levaram consigo o dinheiro todo , o telefone,  meu automóvel  e mataram minha companhia. Eu suspeito que o culpado seja um peão que demiti há certo tempo.  O pior é que não consigo contatar meus homens para que dêem um jeito de me resgatar por essas bandas. Peço-lhe somente uma coisa. Me arrume um cavalo, dos bons, resistente que eu lhe prometo que lhe recompensarei de uma maneira  que o senhor não pode imaginar melhor.

Adamastor riu, mas riu descaradamente. Na verdade ria pois só possuía um cavalo dos bons, e estava montado nele naquele momento, e nem pelo próprio Deus aquele animal deixaria sua fazenda. Fez cara de desdém olhando para os trapos sujos do homem pensando se ele realmente pensava que alguém iria acreditar naquela história.

– Olha aqui homem, eu vou te dar água, uma boa refeição e você some daqui antes de eu me arrepender de fazer isso. Só estou tendo tamanha misericórdia porque acredito que você esteja precisando mesmo é comer para deixar de ter alucinações – Adamastor disse e virou-se com o cavalo.

– Não nego a água, mas dispenso a comida – o homem replicou – Mas insisto que me empreste o cavalo, lhe garanto que além de devolvê-lo, lhe recompensarei.

– Pois como você me daria tal garantia? Pensa que sou burro?

– Minha garantia é minha palavra senhor Adamastor, a única garantia que tenho aqui!

– Pois então suma daqui com ela, e esqueça água comida ou sombra, nenhum homem que tenta me fazer de bobo merece tais regalias! Não cheguei aqui sendo enganado, e depois de tanta coisa na vida, não vou começar a ser agora.

Adamastor virou e acenou para o peão que acompanhou o senhor em farrapos até a saída da fazenda. O homem ainda se virou e de longe encarou o chefe do local.

Algumas semanas se passaram e Adamastor nem se lembrava mais do tal aventureiro. Acordou numa quarta feira cedo, e foi até sua sala na casa grande da fazenda. Entrou, sentou-se em sua poltrona de couro e pegou seu jornal. Quase caiu da cadeira e engasgou com a própria saliva quando viu na seção de agronegócios a foto do tal aventureiro, agora bem vestido,  ao lado de ninguém menos que João Baio, dono da fazenda Santa Bárbara. Correu rapidamente os olhos para ler a notícia e viu  a manchete.

“PEQUENO FAZENDEIRO EMPRESTA MULA À  JONAS FIGUEIREDO MELLO, GRANDE EMPRESÁRIO DA PECUÁRIA LEITEIRA”

Adamastor não acreditava, desceu rápido para ler na íntegra:

 JOÃO BAIO, DONO DA SANTA BÁRBARA,UMA PEQUENA FAZENDA  LOCALIZADA EM ITAMAMBY TIROU A SORTE GRANDE. NA SEMANA PASSADA JOÃO RECEBEU A VISITA INESPERADA DE JONAS FIGUEIREDO MELLO, QUE APÓS SOFRER UM GOLPE EM UMA NEGOCIAÇÃO TEVE SEUS PERTENCES LEVADOS E BUSCOU SOCORRO NA PROPRIEDADE DE JOÃO.  “ EU NÃO O RECONHECI, NA VERDADE NEM O CONHECIA POR FOTOS “ – DISSE JOÃO . “ NA VERDADE NEM MESMO ACREDITEI NA HISTÓRIA QUE ELE CONTOU, MAS VI QUE ESTAVA EM SITUAÇÃO RUIM E PENSEI QUE SE AQUELE HOMEM PRECISAVA DE AJUDA, ERA MINHA FUNÇÃO AJUDAR. POIS EU PEGUEI UMA MULINHA BOA POR DEMAIS QUE EU TENHO, A ÚNICA NA VERDADE, E LHE DISSE QUE LEVASSE COM ELE” – COMPLETOU JOÃO. JONAS FICOU EMOCIONADO COM A HUMILDADE DO BOM RAPAZ QUE LHE AJUDOU. “ A PROPRIEDADE DELE É PEQUENA, ELE TEM SÓ UMA MONTA, E ERA A MULINHA QUE ME DEU, NEM ACREDITEI QUANDO ME DISSE PARA LEVAR A MULA, MEUS OLHOS SE ENCHERAM DE LÁGRIMAS “. POIS AGORA OS PROBLEMAS DE JOÃO ACABARAM.  COMO FORMA DE AGRADECIMENTO, JONAS FEZ TAMBÉM UMA BOA AÇÃO. COMPROU MAIS UM LOTE DE TERRA PARA JOÃO BAIO, ALÉM DE TER EQUIPADO A FAZENDA DO RAPAZ COM OS MELHORES EQUIPAMENTOS PARA ORDENHA E DOOU 40 VACAS DE ELITE PARA QUE A PRODUÇÃO DE JOÃO AUMENTE. “ ESSE HOMEM FEZ UM SACRIFÍCIO! ME AJUDOU SOMENTE POR ACHAR QUE EU PRECISAVA, ELE NÃO TINHA GARANTIA ALGUMA DE QUE EU IRIA SER QUEM SOU. NÃO FEZ O QUE FEZ PENSANDO QUE IRIA GANHAR ALGUMA COISA, NA VERDADE TINHA BASTANTE CERTEZA QUE IRIA PERDER UMA DAS POUCAS COISAS QUE TINHA”. JONAS DISSE. A MULINHA JÁ VOLTOU PARA A PROPRIEDADE DE JOÃO E GANHOU UM PIQUETE SÓ PARA ELA. “ ESSA MULA É ABENÇOADA RAPAZ, A PARTIR DE AGORA ELA VAI TER VIDA DE RAINHA” – DECLAROU JOÃO BAIO.

Adamastor desmaiou antes mesmo de poder falar alguma coisa.

Nessa hora, João Baio estava sentado na varanda de sua casa, fumando um cigarro de palha, descansando após uma vida de trabalho duro.




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