07
Abr
08

O Pequeno Cofre

Mário era um rapaz trabalhador, era veterinário e passava maior parte de seu dia visitando fazendas por todo estado de Minas Gerais.  Amava a profissão, até pensara em largar a faculdade por problemas pessoais. Mas seguiu em frente e formou-se um bom veterinário. Especializou-se em grandes animais e seguiu a área de reprodução. Era uma parte promissora da veterinária, o rapaz era bom, tinha contatos e se deu bem. Estava ganhando dinheiro, muito dinheiro. Já havia viajado bastante. Com muito trabalho, conseguiu guardar dinheiro suficiente para comprar um objeto de seu desejo desde a adolescência. Um anel que fora de seu falecido avô e que há tempos estava nas mãos de outra pessoa. Mário fez uma oferta imperdível e arrematou o objeto. Não usava o anel, apenas o guardava numa pequena caixa em sua casa.

De tempos em tempos, o rapaz recebia alguns pedidos para ir a fazendas no estado de São Paulo. Em uma dessas visitas, após a rotina, resolveu tomar uma cerveja com um velho amigo de faculdade que morava numa cidade bem próxima à fazenda onde ele estava.

Em menos de uma hora ambos estavam sentados tomando cerveja. O anfitrião convidara Mário a conhecer as dependências da casa. Passaram por todos os cômodos e foram visitar a parte externa.  Ali Mário se deparou com alguns cães. Não simpatizava muito com eles, nunca fora muito amigo de cães ou gatos. Reparou que uma cadela estava num canto, amamentando sua cria. Apesar de ter achado o animal de uma beleza surpreendente, não se aproximou. Seu amigo vendo a admiração escondida lançou:

- Leva um pra você!

- Não! Nem brinca, não tenho tempo pra cuidar de cães

- Que isso, deixa ele na sua chácara com o caseiro! Esses cães se viram bem, além de serem ótimos cães de guarda.

- O quê? Essa coisinha de nada cão de guarda?  - Mário riu discretamente – Nunca!

Entraram novamente e continuaram a conversar na mesa.  Tomaram diversas cervejas e sendo tarde, o rapaz dormiu na casa do amigo. Logo cedo no outro dia, entrou em seu carro e viajou novamente para sua cidade. Precisava cuidar de alguns papéis. A primeira coisa que fazia sempre que entrava em casa era verificar se caixa e anel estavam ainda ali.

Uma semana depois, resolveu ir para a chácara descansar. Ali chegando foi recebido pelo caseiro que lhe disse:

- Doutor, chegou uma encomenda ai pro senhor!

- Encomenda Eriberto? – assim chamava o caseiro – Mas eu não pedi nada!

- Pois chegou uma pro senhor e óia, é demais por bonita viu!

Entraram rapidamente e qual não foi o susto do homem ao ver logo na entrada de sua casa um pequeno cachorro, que ele obviamente sabia muito bem de onde tinha saído.

Gostar não gostava, mas não faria desfeita ao amigo. Mas decidiu, fora de casa o animal ficaria. Não entraria por nada nesse mundo, faça chuva ou mesmo neve.

O tempo foi passando e Mário foi se apegando demais ao pequenino. Já levava Jack – como chamava seu cão – para as visitas às fazendas e educara bem o animal.

Mas o tal papo de cão de guarda não colou. Jack não podia ouvir um estourar de fogos que corria e se escondia embaixo de qualquer lugar que pudesse. O rapaz ria, mas não se importava.

Após algum tempo, resolveu levar o cão para sua casa na cidade. Tudo bem, dentro de casa sim, mas encima da cama jamais, pensava consigo mesmo. E novamente o animal atendeu às expectativas. Não fazia bagunça e sempre recebia o dono com a maior felicidade, com sua bolinha de tênis na boca, louco para brincar. Mas certa vez, Jack resolveu receber seu proprietário com nada mais nada menos do que a tal caixa entre os dentes.

Mário ficou louco, gritou com o cão e lhe deu diversos tapas. Ameaçando deixá-lo para fora de casa caso ele fizesse aquilo novamente. Como sempre o animal correu e se escondeu.

No dia seguinte o veterinário precisava visitar uma fazenda bem próxima e como castigo resolveu não levar Jack para o habitual passeio.

Saiu de casa às pressas e foi a seu destino. Fez tudo que deveria fazer e correu de volta para casa a fim de descansar antes do próximo compromisso.

Chegando em casa, Mário segurou o coração na boca. O portão de entrada estava escancarado  e era evidente que sua casa fora invadida. Entrou correndo e foi ao mesmo lugar de sempre. Olhou encima da lareira e não viu a bendita caixa. Os móveis estavam todos revirados, objetos no chão, vidros quebrados, geladeira aberta. O rapaz nem se lembrou de seu animal. Ficou ensandecido procurando em todos os locais pela caixa. Após quase uma hora sem sucesso, desistiu e sentou-se no sofá para se lamentar.

Foi quando ouviu um leve choro vindo do quarto. Na hora se lembrou de Jack e correu para o recinto, mas nada viu. Ficou desesperado, imaginou que pela decepção estivesse tendo ilusões. Seu cão era tão covarde que provavelmente fizera até festa para os visitantes indesejados. Mas no fim do pensamento ouviu novamente um choro, vindo do banheiro do quarto. Correu para lá e na primeira olhadela nada viu, mas se agachou e olhou embaixo da pia. Lá estava Jack. O animal estava transtornado, virado com o rosto para a parede, tremendo por inteiro.

Mário chamou-o pelo nome, Jack se virou num espasmo de felicidade e correu na direção do dono. Nessa hora, Mário pode ver entre os dentes do animal, agora um pouco amassada a caixa que tanto procurara. Abriu-a e lá dentro estava o valioso anel de seu avô

O rapaz riu de felicidade,  e riu da cara de Jack, que o olhava com as orelhas abaixadas, só esperando pelo tapa.


3 Respostas to “O Pequeno Cofre”


  1. Abril 7, 2008 às 4:34 pm

    Ouvi a estória do Jack, agora quero ouvir a do Daniels…Gostei! Especialmente do último parágrafo.

    Abrazzo Ragazzo

    http://www.vandosquebrados.wordpress.com

  2. 2 Babí
    Abril 9, 2008 às 4:40 pm

    Ahhhhhhhhh q bunitinhuuuuuuu

    adorei….tadinho do cãozinho…=D

    bjos

  3. 3 Lahos
    Abril 12, 2008 às 8:35 pm

    Desculpe pela demorar em comentar Gabriel.
    Gostei bastante do conto, muito criativo e bem escrito.
    Grande abraço


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