Arquivo de Março, 2008

31
Mar
08

Golpe da sorte

Na zona rural de Itamambi, havia apenas duas fazendas produtoras de leite. Uma delas era a grande Tourinhos, comandada por um homem conservador, porém visionário, o senhor Adamastor Forte. A  outra , a pequena  Santa Bárbara, que até pouco tempo era comandada por Robério Baio. Robério falecera e em seu lugar ficara seu filho João Baio. 

Numa perspectiva simples, era como se a Tourinhos tivesse o tamanho e a produção dez vezes maior que a da Santa Bárbara. Fora isso havia uma antiga briga entre as famílias. Os Baios acusavam os Fortes de terem roubado parte de seu terreno e com isso conseguido aumentar a produção.

O objetivo de Adamastor era acabar de vez com o concorrente, findar a vida da Santa Bárbara e ter o domínio na produção leiteira de Itamambi. E o homem estava conseguindo. Nos últimos anos, além de aumentar sua produção com a compra de novas novilhas de uma raça superior,  havia se beneficiado com a morte de algumas vacas de seu rival em virtude de uma praga.

Adamastor sabia fazer as coisas. Tinha pulso forte, ótimos equipamentos,  conseguia bons preços em seus produtos, barganhava fretes e com isso tinha um alto lucro. Já João recebera a fazenda em déficit pela maneira como o pai a levara.  Não que fosse culpa de Robério. A falta de bons equipamentos e a pressão do concorrente não lhe dava outras alternativas a não ser aceitar preços impostos pelos compradores.

Na Tourinhos tudo tinha organização. Peão que fosse pego fazendo qualquer coisa fora do protocolo era mandado embora e outros peões ficavam de olho para que o empregado demitido não voltasse para prejudicar os animais da fazenda como vingança. Na Santa Bárbara as coisas não tinham tamanha estruturação.  Os próprios  proprietários eram encarregados da ordenha, e três peões auxiliavam.

Certo dia Adamastor estava rebanhando as vacas encima de seu cavalo, um Mangalarga maravilhoso e muito forte de nome Trator, quando viu um homem todo sujo e com as roupas rasgadas adentrar a porteira da fazenda e se dirigir a ele. O homem estava machucado, cheio de escoriações e apático. Adamastor de dirigiu ao peão a seu lado e disse:

- Vá lá ver o que aquele trapo quer por aqui!

O peão foi e após alguns instantes chegou em companhia do senhor que acabara de chegar. Adamastor então disse:

- O que lhe aconteceu homem?

- Senhor Adamastor, eu vim pra essas bandas para comprar algumas novilhas para minha fazenda que fica ao norte daqui, bastante distante, na cidade de Montana. Trouxe comigo apenas a roupa do corpo , o dinheiro necessário para a negociação,  meu aparelho celular e um capanga. Pois ocorre meu caro, que fui enganado. Quando cheguei a meu destino, fui cercado por diversos homens a cavalo que além de me surrarem, levaram consigo o dinheiro todo , o telefone,  meu automóvel  e mataram minha companhia. Eu suspeito que o culpado seja um peão que demiti há certo tempo.  O pior é que não consigo contatar meus homens para que dêem um jeito de me resgatar por essas bandas. Peço-lhe somente uma coisa. Me arrume um cavalo, dos bons, resistente que eu lhe prometo que lhe recompensarei de uma maneira  que o senhor não pode imaginar melhor.

Adamastor riu, mas riu descaradamente. Na verdade ria pois só possuía um cavalo dos bons, e estava montado nele naquele momento, e nem pelo próprio Deus aquele animal deixaria sua fazenda. Fez cara de desdém olhando para os trapos sujos do homem pensando se ele realmente pensava que alguém iria acreditar naquela história.

- Olha aqui homem, eu vou te dar água, uma boa refeição e você some daqui antes de eu me arrepender de fazer isso. Só estou tendo tamanha misericórdia porque acredito que você esteja precisando mesmo é comer para deixar de ter alucinações – Adamastor disse e virou-se com o cavalo.

- Não nego a água, mas dispenso a comida – o homem replicou – Mas insisto que me empreste o cavalo, lhe garanto que além de devolvê-lo, lhe recompensarei.

- Pois como você me daria tal garantia? Pensa que sou burro?

- Minha garantia é minha palavra senhor Adamastor, a única garantia que tenho aqui!

- Pois então suma daqui com ela, e esqueça água comida ou sombra, nenhum homem que tenta me fazer de bobo merece tais regalias! Não cheguei aqui sendo enganado, e depois de tanta coisa na vida, não vou começar a ser agora.

Adamastor virou e acenou para o peão que acompanhou o senhor em farrapos até a saída da fazenda. O homem ainda se virou e de longe encarou o chefe do local.

Algumas semanas se passaram e Adamastor nem se lembrava mais do tal aventureiro. Acordou numa quarta feira cedo, e foi até sua sala na casa grande da fazenda. Entrou, sentou-se em sua poltrona de couro e pegou seu jornal. Quase caiu da cadeira e engasgou com a própria saliva quando viu na seção de agronegócios a foto do tal aventureiro, agora bem vestido,  ao lado de ninguém menos que João Baio, dono da fazenda Santa Bárbara. Correu rapidamente os olhos para ler a notícia e viu  a manchete.

“PEQUENO FAZENDEIRO EMPRESTA MULA À  JONAS FIGUEIREDO MELLO, GRANDE EMPRESÁRIO DA PECUÁRIA LEITEIRA”

Adamastor não acreditava, desceu rápido para ler na íntegra:

 JOÃO BAIO, DONO DA SANTA BÁRBARA,UMA PEQUENA FAZENDA  LOCALIZADA EM ITAMAMBY TIROU A SORTE GRANDE. NA SEMANA PASSADA JOÃO RECEBEU A VISITA INESPERADA DE JONAS FIGUEIREDO MELLO, QUE APÓS SOFRER UM GOLPE EM UMA NEGOCIAÇÃO TEVE SEUS PERTENCES LEVADOS E BUSCOU SOCORRO NA PROPRIEDADE DE JOÃO.  “ EU NÃO O RECONHECI, NA VERDADE NEM O CONHECIA POR FOTOS “ – DISSE JOÃO . “ NA VERDADE NEM MESMO ACREDITEI NA HISTÓRIA QUE ELE CONTOU, MAS VI QUE ESTAVA EM SITUAÇÃO RUIM E PENSEI QUE SE AQUELE HOMEM PRECISAVA DE AJUDA, ERA MINHA FUNÇÃO AJUDAR. POIS EU PEGUEI UMA MULINHA BOA POR DEMAIS QUE EU TENHO, A ÚNICA NA VERDADE, E LHE DISSE QUE LEVASSE COM ELE” – COMPLETOU JOÃO. JONAS FICOU EMOCIONADO COM A HUMILDADE DO BOM RAPAZ QUE LHE AJUDOU. “ A PROPRIEDADE DELE É PEQUENA, ELE TEM SÓ UMA MONTA, E ERA A MULINHA QUE ME DEU, NEM ACREDITEI QUANDO ME DISSE PARA LEVAR A MULA, MEUS OLHOS SE ENCHERAM DE LÁGRIMAS “. POIS AGORA OS PROBLEMAS DE JOÃO ACABARAM.  COMO FORMA DE AGRADECIMENTO, JONAS FEZ TAMBÉM UMA BOA AÇÃO. COMPROU MAIS UM LOTE DE TERRA PARA JOÃO BAIO, ALÉM DE TER EQUIPADO A FAZENDA DO RAPAZ COM OS MELHORES EQUIPAMENTOS PARA ORDENHA E DOOU 40 VACAS DE ELITE PARA QUE A PRODUÇÃO DE JOÃO AUMENTE. “ ESSE HOMEM FEZ UM SACRIFÍCIO! ME AJUDOU SOMENTE POR ACHAR QUE EU PRECISAVA, ELE NÃO TINHA GARANTIA ALGUMA DE QUE EU IRIA SER QUEM SOU. NÃO FEZ O QUE FEZ PENSANDO QUE IRIA GANHAR ALGUMA COISA, NA VERDADE TINHA BASTANTE CERTEZA QUE IRIA PERDER UMA DAS POUCAS COISAS QUE TINHA”. JONAS DISSE. A MULINHA JÁ VOLTOU PARA A PROPRIEDADE DE JOÃO E GANHOU UM PIQUETE SÓ PARA ELA. “ ESSA MULA É ABENÇOADA RAPAZ, A PARTIR DE AGORA ELA VAI TER VIDA DE RAINHA” – DECLAROU JOÃO BAIO.

Adamastor desmaiou antes mesmo de poder falar alguma coisa.

Nessa hora, João Baio estava sentado na varanda de sua casa, fumando um cigarro de palha, descansando após uma vida de trabalho duro.

29
Mar
08

Saudade

Em alguma outra vida,
devemos ter feito algo de muito grave,
Para sentirmos tanta saudade…
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé , doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso…
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.

POR MIGUEL FALABELA

28
Mar
08

Manézinho caixa de fósforo 1

Manuel era um grandissíssimo e conhecido bêbado da cidade de Nova Iguaçu. Era conhecido como Manézinho caixa de fósforo, pois andava com uma caixinha de fósforos na mão esquerda, chacoalhando-a constantemente onde quer que fosse. Freqüentemente era visto dormindo nos bancos da praça da igreja. Ninguém se incomodava. O próprio padre sugerira ao homem que se acomodasse, relembrando no momento de seu discurso alguma passagem da Bíblia sobre a casa de Deus ser acalanto para todos os homens. Manézinho resolveu não abusar e dormir dentro da casa do bom senhor Deus, escolheu seu jardim. Todos os dias de manhã, levantava e saia em busca de dinheiro para obviamente saciar sua sede incessante. 

Os moradores da cidade já haviam tentando de diversas formas fazer com que o pobre homem parasse de uma vez por todas de beber. Nada adiantava, Manuel sempre voltava para o vício.

Sempre entrava no mesmo bar, o bar do Mirtão, e pedia a mesma bebida todos os dias, várias vezes ao dia. Cachaça com limão . Era isso que fazia o sorriso aparecer na face de Manézinho.

Não era muito de conversar com as pessoas, acreditava estar sempre incomodando a todos com seus pensamentos. Vez ou outra trocava algumas palavras com alguns transeuntes da praça. Costuma ajudar as senhoras a carregar as sacolas de compra, pois sabia que receberia alguns trocados por isso.

Manuel detestava quando as pessoas, normalmente visitantes da cidade, passavam por ele exclamavando lamentações. Odiava ser motivo de pena. Fazia isso por que gostava e não pararia enquanto nao achasse que fosse necessário. Não sabia na verdade o que era necessário, pois comia uma vez ao dia, isso nos dias bons.

Algumas vezes, o homem acaba por dar alguns vexames, estando demasiadamente embriagado. Mas os moradores se irritavam somente na hora e acabavam por perdoá-lo com o tempo.

Certo dia, em uma festa em comemoração a São Sebastião, onde toda a cidade se aglutinava na praça da igreja em barracas de doces, pastéis e bebidas, Manezinho acordou com o barulho de vidro se estilhaçando ao chão. Levantou sobressaltado e olhou na direção do estrondo. Dois homens, de outra cidade ali próxima, estavam brigando. Manuel conseguiu ouvir alguma coisa sobre dívida de jogo antigo e começou a andar na direção da confusão.

Quando estava quase chegando ao local exato da bagunça, Manezinho viu um dos homens tirar da cintura um revólver que deveria ser mais velho que a pólvora. O homem apontou a arma para seu desafiante. Manuel não parou nem diminuiu a marcha. Viu o rapaz empunhando a arma olhá-lo com o canto dos olhos.  A mão do atirador tremeu, todos podiam ver que estava com medo. O outro homem, ainda ameaçado pela mira da arma, não conseguia nem se mexer, tamanho seu pavor. Mas antes mesmo que o bravo atirador tivesse alguma reação, o bêbado Mané entrou na frente do homem ameaçado e encarou o ameaçante. O rapaz com a arma encarou Manézinho sem acreditar no que estava vendo, pensou consigo mesmo que aquele bêbado deveria estar extremamente louco para fazer o que estava fazendo. Como não queria machucar ninguém além de seu devedor, abaixou sua arma e correu às pressas para seu carro. Após a dispersão da briga e de diversos abraços, Manézinho voltou a seu banco e se sentou observando a quermesse. Após alguns minutos, o padre veio e sentou-se junto com o pobre homem, dizendo:

- Você ficou louco Mané?

- Louco por quê ? – respondeu o embriagado homem.

- Aquele rapaz poderia ter te dado um tiro na fuça doido!

- Podia padre!

- E então, por quê raios você entrou na frente dele?

- Ele podia padre, mas não ia atirar em mim, foi a dó e não a coisa certa que parou a mão dele! Ele teve dó de mim, mas não desistiu de matar aquele homem pelo motivo mais certo.

- Como assim rapaz? Não entendo.

- Sabe padre – Manézinho encarou o homem de batina nesse momento – Alguma vez eu ouvi em algum lugar, que se não temos o poder de dar a vida, não temos também o direito de tirá-la!

O padre ficou perplexo.

Manézinho deitou-se e adormeceu tranquilamente.

Por Gabriel Lucas Souza

27
Mar
08

Morte

Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer instante iria estourar uma piada. Estava tudo sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena. 
Mas nada acontecia ali de risível, era só dor e perplexidade, que é mesmo o que e causa em todos os que ficam. 
A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por si só, é uma piada pronta. 
Morrer é ridículo. 
Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. 
Como assim? 
E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? 
Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco? 
Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. 
Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. 
Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em  frente… 
De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. 
Qual é? Morrer é um chiste. 
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. 
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. 
Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.

Não faz exames médicos, fuma dois maços por  dia, bebe de tudo, curte costelas gordas , mulheres e morre num sábado de  manhã.
Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. 
Isso é para ser levado a sério? 
Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. 
Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. 
Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. 
E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça. 
Por isso viva tudo que há para viver. 
Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida… 
Perdoe…. sempre!!

Por Pedro Bial

26
Mar
08

O Mestre Aprendiz…

Roberval era um homem sem cultura alguma. Era viúvo e vivia em uma casa simples na cidade de Naraé, com seus 4 filhos, todos homens. Passava dos 60 anos, mas mesmo assim, nao conhecia coisa alguma da vida, exceto por uma arte, fazer violões. Na cidade de Naraé, todos o conheciam, todos concordavam com uma coisa, nao havia ali ou em qualquer lugar um homem que soubesse fazer um violão como ele.

Mas todos na cidade também o conheciam por seu gênio. Roberval era um homem que alem da ignorância carregava consigo uma imensa grosseria e por saber que era praticamente único no que fazia, tinha orgulho por demais. Não ensinava ninguém sua arte, nem mesmo aos filhos. Era astuto em sua decisão, iria morrer com seu segredo e ponto.

Sua oficina ficava na avenida principal da cidade, próximo a tudo, afinal de contas, Naraé não era pequena,  mas sim minúscula. O homem passava doze horas de seu dia enfurnado ali, e nao havia Cristo que o tirasse de lá. Na verdade, precisava ficar todo esse tempo trabalhando. Roberval recebia encomendas de todos os cantos e dos mais fomosos músicos.

Em uma terça-feira, a tarde, um rapaz surgiu na porta da oficina, as duas maos cruzadas atrás do corpo,  e ali ficou, bloqueando a luz do sol. Roberval, deu uma rápida olhada no rapaz e perguntou:

- O que você quer garoto?

O rapaz nada disse, continuava a olhar o homem com a chapa de madeira a sua frente.

- Você é surdo rapaz? Perguntei o que você quer! Se não quiser nada vá andando e deixe a luz entrar.

O  garoto mexeu o lábio mas nada falou, virou as costas e saiu correndo.

- Cada maluco que aparece nessa cidade – Roberval falou.

Dois dias depois, mais para o fim da tarde, o mesmo garoto apareceu, da mesma maneira que anteriormente, as duas mãos cruzadas para trás e ficou olhando para o artista. Roberval perdeu a paciência, se levantou e gritou com o garoto:

- Que droga rapaz, você tem algum problema? O que você quer aqui?

O rapaz se assustou, mas permaneceu, em uma clara demonstração de força, conseguiu abrir os lábios e com a voz mais baixa que o barulho do vento disse?

- É difícil?

-Difícil o que moleque?

O garoto nada disse, simplesmente apontou o dedo indicador para o violão. Nesse momento, Roberval pôde perceber que o garoto nao tinha a outra mão, por um momento ele teve pena do rapaz, mas isso não o impediu de ser mais uma vez rude.

- Mais difícil do que você pensa! Precisa ter o dom, tempo, paciência e as duas mãos meu rapaz, e infelizmente vejo que não é seu caso.

O garoto olhou para a própria mão e desviou o olhar para o violão, um traço de decepção passou por seu rosto, ele baixou a cabeça e com a voz novamente fraca perguntou:

- Posso ficar olhando o senhor fazê-los.

- Pelo menos tempo vejo que você têm! Só nao fique na porta, sente em algum canto por aí. Qual seu nome?

- Luis Oliveira Catri senhor.

- Bom, senta aí em algum canto e nenhum pio, senão você vai pra fora!

O rapaz se acomodou em um banquinho e ficou calado o tempo todo. Ficava com os olhos fixos nas mãos de Roberval e parecia nem piscar.

Os dias foram passando e repetidamente o garoto ia à oficina, entrava sem nada dizer, saía dizendo menos ainda. Roberval nao se incomodava com  a presença do garoto. Na verdade, o que fazia o artista se tranquilizar era a deficiência de Luiz. Roberval sabia que nao havia ameaça, pois o garoto nunca conseguiria fazer um violão daquela maneira.

Após cerca de dois meses, o garoto apareceu na oficina, trazendo consigo nas mãos um violão. Roberval olhou ao garoto e mediu o violão de ponta a ponta. Pegou o violão nas mãos, girou para um lado, para o outro, balançou levemente. E então falou:

- Um pouco pesado. O braço também um pouco inclinado, mas um bom violão! Onde você arrumou isso?

- Eu fiz!  – Luiz respondeu

- Magina, você? Impossível meu rapaz, me desculpe, mas…

- Se o senhor quiser, posso fazer um agora mesmo aqui!

- Agora?  Como assim rapaz? Demora pelo menos dois dias para montar um violão e fazer o acabamento.

- Posso?

Roberval parou. Estava assustado. Como aquele garoto podia ter a audácia de dizer a ele que conseguria fazer um violão em menos de dois dias, ainda mais sendo do jeito que era. Mas seu orgulho falava mais alto, ele tinha de ver com os próprios olhos.

- Vá em frente garoto. Mas têm uma condição, se você nao terminar esse violão ainda hoje, nunca mais poderá voltar à oficina! Aceita o desafio?

O garoto nem respondeu, pegou algumas chapas de madeira. Sentou-se em um banquinho baixo. Com a mão boa, segurou um martelo, e no braço esquerdo, amarrou uma espécie de talha  com um pano velho que trazia no bolso. Aos seus pés deixou uma serra, algumas farpas menores de madeira e cola.

Começou então seu trabalho, Roberval ficou assustado com a habilidade que o garoto tinha principalmente com o braço esquerdo. Luiz demorou 20 minutos para preparar a base de baixo do instrumento, enquanto o próprio artista demorava quase 1 hora inteira. Roberval sentou e observou perplexo o desenvolvimeno de Luiz. ´

Após algumas paradas para descanso e água, o rapaz havia termindo o violão,lixado,  passado o verniz, colocado as cravelhas e feito o acabamento. Tudo isso em 8 horas.

Luiz se levantou, esticou o instrumento para Roberval. O artista pegou o instrumento em suas mãos, fez todas as verificações, pôde ver que na assinatura estava escrito Catri e não conteve as palavras:

- Inacreditável!

- Me ensina agora?

Roberto olhou para o garoto. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Mediu novamente o violão e sabia que havia chegado a hora de se entregar. Aquele garoto merecia aprender.

- Volte amanhã bem cedo rapaz!

Depois do ocorrido o garoto chegava todos os dias cedinho à oficina, antes mesmo de Roberval. Com o tempo, o artista se simpatizou com o rapaz e acabou formando um laço de afeto, claro não de amizade, Roberval não tinha amigos.

Luiz aprendia rápido e se dedicava, com o passar dos anos, seus violões foram se aperfeiçoando e ele mesmo tinha agora alguns clientes que não podiam pagar pelo serviço de seu mestre. O rapaz era sempre muito humilde, aceitava as críticas de seu superior e sempre se empenhava em melhorar. Com isso, o garoto foi se tornando demasiadamente bom na arte de fazer violões, na realidade havia superado Roberval, pois era mais jovem e além de fazer melhores instrumentos, os fazia mais rápido. Isso começou a preocupar o mestre. Alguns clientes de Roberval agora queriam fazer seus violões com Luiz, mas o garoto sempre recusava as ofertas. Mesmo assim, Roberval estavase sentindo ameaçado e incomodado. Um dia, sem no final do expediente, ele se dirigiu a Luiz e disse:

- Rapaz, já lhe ensinei tudo que sei e agora creio que já seja a hora de você se virar sozinho. Monte sua própria oficina, tenho certeza que se dará muito bem. Há espaço suficiente para ambos na cidade, mas a oficina está ficando pequena demais para nós dois.

- Mas.. Por …  O quê? – Luiz estava claramente abalado.

- Não faça perguntas rapaz! Essa é minha decisão final.

O rapaz ficou cabisbaixo e fez um sinal afirmativo com a cabeça. Se livrou dos instrumentos e saiu sem s despedir.

Após certo tempo, Luiz havia montado sua própria oficina, Catri se chamava. Roberval passava todos os dias na porta da oficina, mas nunca entrava. Sentia um misto de felicidade e raiva vendo que o rapaz estava se saindo bem com a arte que ele ensinara.

Certo dia, quando estava em sua oficina, Roberval viu dois homens entrando em sua oficina. Estavam vestidos com ternos e carregavam pastas em suas mãos.

- O quê vocês querem? – o artista perguntou

Um dos homens se dirigiu a ele:

- O senhor é Roberval?

- Sou eu mesmo! Por quê?

- Nós somos diretores de uma grande empresa! Fabricamos instrumentos musicais. Só os melhores instrumentos saem de nossas portas para os mais diversos lugares do mundo. Soubemos que o senhor é o melhor fabricante de violões que existe e viemos aqui lhe oferecer um contrato para que trabalhe para nós. O salário é bom, e você vai trabalhar menos. O que nos diz?

- Olha meu amigo, não sei no que vocês gostam de acreditar, mas com certeza lhe disseram mentira. Não sou o melhor, já fui. Hoje meu aprendiz me supera e muito, sem a menor dúvida!

- Catri? – o homem de terno perguntou.

- Você o conhece? – Robervak replicou.

- Sim, saímos agora mesmo da oficina dele.

- Ah entendi! O rapaz recusou e vocês vieram atrás da segunda opção!

- Não! – o homem disse com calma – Na verdade, Catri nos disse que os boatos de que ele seria o melhor artista que existia estavam errados! Ele disse que não há em lugar algum que se possa encontrar, um artista que seja tão completo como o senhor! E que por nada nesse mundo ele aceitaria tomar para ele, o lugar que sempre fora seu por direito.

Roberval ficou atônito. Agora ele percebia. Mesmo tendo ensinado tudo que sabia a Luiz, nunca se interessou em aprender nada com o rapaz. E como podia ter aprendido com ele. A lealdade do garoto era sua maior marca. Havia feito mal juízo dele. Seus olhos ficaram úmidos e ele percebeu que cometera um erro com Luiz. Mais que isso, ele havia cometido um erro consigo mesmo, havia traído a única pessoa que jamais o trairia.

Por Gabriel Lucas Souza




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