Na zona rural de Itamambi, havia apenas duas fazendas produtoras de leite. Uma delas era a grande Tourinhos, comandada por um homem conservador, porém visionário, o senhor Adamastor Forte. A outra , a pequena Santa Bárbara, que até pouco tempo era comandada por Robério Baio. Robério falecera e em seu lugar ficara seu filho João Baio.
Numa perspectiva simples, era como se a Tourinhos tivesse o tamanho e a produção dez vezes maior que a da Santa Bárbara. Fora isso havia uma antiga briga entre as famílias. Os Baios acusavam os Fortes de terem roubado parte de seu terreno e com isso conseguido aumentar a produção.
O objetivo de Adamastor era acabar de vez com o concorrente, findar a vida da Santa Bárbara e ter o domínio na produção leiteira de Itamambi. E o homem estava conseguindo. Nos últimos anos, além de aumentar sua produção com a compra de novas novilhas de uma raça superior, havia se beneficiado com a morte de algumas vacas de seu rival em virtude de uma praga.
Adamastor sabia fazer as coisas. Tinha pulso forte, ótimos equipamentos, conseguia bons preços em seus produtos, barganhava fretes e com isso tinha um alto lucro. Já João recebera a fazenda em déficit pela maneira como o pai a levara. Não que fosse culpa de Robério. A falta de bons equipamentos e a pressão do concorrente não lhe dava outras alternativas a não ser aceitar preços impostos pelos compradores.
Na Tourinhos tudo tinha organização. Peão que fosse pego fazendo qualquer coisa fora do protocolo era mandado embora e outros peões ficavam de olho para que o empregado demitido não voltasse para prejudicar os animais da fazenda como vingança. Na Santa Bárbara as coisas não tinham tamanha estruturação. Os próprios proprietários eram encarregados da ordenha, e três peões auxiliavam.
Certo dia Adamastor estava rebanhando as vacas encima de seu cavalo, um Mangalarga maravilhoso e muito forte de nome Trator, quando viu um homem todo sujo e com as roupas rasgadas adentrar a porteira da fazenda e se dirigir a ele. O homem estava machucado, cheio de escoriações e apático. Adamastor de dirigiu ao peão a seu lado e disse:
- Vá lá ver o que aquele trapo quer por aqui!
O peão foi e após alguns instantes chegou em companhia do senhor que acabara de chegar. Adamastor então disse:
- O que lhe aconteceu homem?
- Senhor Adamastor, eu vim pra essas bandas para comprar algumas novilhas para minha fazenda que fica ao norte daqui, bastante distante, na cidade de Montana. Trouxe comigo apenas a roupa do corpo , o dinheiro necessário para a negociação, meu aparelho celular e um capanga. Pois ocorre meu caro, que fui enganado. Quando cheguei a meu destino, fui cercado por diversos homens a cavalo que além de me surrarem, levaram consigo o dinheiro todo , o telefone, meu automóvel e mataram minha companhia. Eu suspeito que o culpado seja um peão que demiti há certo tempo. O pior é que não consigo contatar meus homens para que dêem um jeito de me resgatar por essas bandas. Peço-lhe somente uma coisa. Me arrume um cavalo, dos bons, resistente que eu lhe prometo que lhe recompensarei de uma maneira que o senhor não pode imaginar melhor.
Adamastor riu, mas riu descaradamente. Na verdade ria pois só possuía um cavalo dos bons, e estava montado nele naquele momento, e nem pelo próprio Deus aquele animal deixaria sua fazenda. Fez cara de desdém olhando para os trapos sujos do homem pensando se ele realmente pensava que alguém iria acreditar naquela história.
- Olha aqui homem, eu vou te dar água, uma boa refeição e você some daqui antes de eu me arrepender de fazer isso. Só estou tendo tamanha misericórdia porque acredito que você esteja precisando mesmo é comer para deixar de ter alucinações – Adamastor disse e virou-se com o cavalo.
- Não nego a água, mas dispenso a comida – o homem replicou – Mas insisto que me empreste o cavalo, lhe garanto que além de devolvê-lo, lhe recompensarei.
- Pois como você me daria tal garantia? Pensa que sou burro?
- Minha garantia é minha palavra senhor Adamastor, a única garantia que tenho aqui!
- Pois então suma daqui com ela, e esqueça água comida ou sombra, nenhum homem que tenta me fazer de bobo merece tais regalias! Não cheguei aqui sendo enganado, e depois de tanta coisa na vida, não vou começar a ser agora.
Adamastor virou e acenou para o peão que acompanhou o senhor em farrapos até a saída da fazenda. O homem ainda se virou e de longe encarou o chefe do local.
Algumas semanas se passaram e Adamastor nem se lembrava mais do tal aventureiro. Acordou numa quarta feira cedo, e foi até sua sala na casa grande da fazenda. Entrou, sentou-se em sua poltrona de couro e pegou seu jornal. Quase caiu da cadeira e engasgou com a própria saliva quando viu na seção de agronegócios a foto do tal aventureiro, agora bem vestido, ao lado de ninguém menos que João Baio, dono da fazenda Santa Bárbara. Correu rapidamente os olhos para ler a notícia e viu a manchete.
“PEQUENO FAZENDEIRO EMPRESTA MULA À JONAS FIGUEIREDO MELLO, GRANDE EMPRESÁRIO DA PECUÁRIA LEITEIRA”
Adamastor não acreditava, desceu rápido para ler na íntegra:
JOÃO BAIO, DONO DA SANTA BÁRBARA,UMA PEQUENA FAZENDA LOCALIZADA EM ITAMAMBY TIROU A SORTE GRANDE. NA SEMANA PASSADA JOÃO RECEBEU A VISITA INESPERADA DE JONAS FIGUEIREDO MELLO, QUE APÓS SOFRER UM GOLPE EM UMA NEGOCIAÇÃO TEVE SEUS PERTENCES LEVADOS E BUSCOU SOCORRO NA PROPRIEDADE DE JOÃO. “ EU NÃO O RECONHECI, NA VERDADE NEM O CONHECIA POR FOTOS “ – DISSE JOÃO . “ NA VERDADE NEM MESMO ACREDITEI NA HISTÓRIA QUE ELE CONTOU, MAS VI QUE ESTAVA EM SITUAÇÃO RUIM E PENSEI QUE SE AQUELE HOMEM PRECISAVA DE AJUDA, ERA MINHA FUNÇÃO AJUDAR. POIS EU PEGUEI UMA MULINHA BOA POR DEMAIS QUE EU TENHO, A ÚNICA NA VERDADE, E LHE DISSE QUE LEVASSE COM ELE” – COMPLETOU JOÃO. JONAS FICOU EMOCIONADO COM A HUMILDADE DO BOM RAPAZ QUE LHE AJUDOU. “ A PROPRIEDADE DELE É PEQUENA, ELE TEM SÓ UMA MONTA, E ERA A MULINHA QUE ME DEU, NEM ACREDITEI QUANDO ME DISSE PARA LEVAR A MULA, MEUS OLHOS SE ENCHERAM DE LÁGRIMAS “. POIS AGORA OS PROBLEMAS DE JOÃO ACABARAM. COMO FORMA DE AGRADECIMENTO, JONAS FEZ TAMBÉM UMA BOA AÇÃO. COMPROU MAIS UM LOTE DE TERRA PARA JOÃO BAIO, ALÉM DE TER EQUIPADO A FAZENDA DO RAPAZ COM OS MELHORES EQUIPAMENTOS PARA ORDENHA E DOOU 40 VACAS DE ELITE PARA QUE A PRODUÇÃO DE JOÃO AUMENTE. “ ESSE HOMEM FEZ UM SACRIFÍCIO! ME AJUDOU SOMENTE POR ACHAR QUE EU PRECISAVA, ELE NÃO TINHA GARANTIA ALGUMA DE QUE EU IRIA SER QUEM SOU. NÃO FEZ O QUE FEZ PENSANDO QUE IRIA GANHAR ALGUMA COISA, NA VERDADE TINHA BASTANTE CERTEZA QUE IRIA PERDER UMA DAS POUCAS COISAS QUE TINHA”. JONAS DISSE. A MULINHA JÁ VOLTOU PARA A PROPRIEDADE DE JOÃO E GANHOU UM PIQUETE SÓ PARA ELA. “ ESSA MULA É ABENÇOADA RAPAZ, A PARTIR DE AGORA ELA VAI TER VIDA DE RAINHA” – DECLAROU JOÃO BAIO.
Adamastor desmaiou antes mesmo de poder falar alguma coisa.
Nessa hora, João Baio estava sentado na varanda de sua casa, fumando um cigarro de palha, descansando após uma vida de trabalho duro.