Pentok era um homem já feito. Estava com 34 anos e durante toda sua vida quis ser um arqueiro. Não conseguiu. Enxergava muito mal e não acertava os alvos, nunca passou em um teste. Quando tinha 20 anos, precisou começar a trabalhar. Seu pai Atros o explusara de casa, como era costume em Liechtenstein para garotos nessa idade que não haviam entrado no serviço militar. Foi então que o rapaz se candidatou a uma vaga no serviço de entrega da cidade. Era inteligente, demais até para aquela profissão, mas aceitou a condição e se destacou. Em poucos anos conseguiu algumas promoções e já entregava as encomendas especiais no castelo de Glastron, não precisando nem mesmo se identificar nos portões. Era conhecido por sua agilidade em entregas e controlava bem seu cavalo.
Durante um inverno rigoroso, Pentok recebeu a incumbência de entregar uma lança dourada para o capitão dos lanceiros dentro do castelo. Pegou seu cavalo, e com o pacote em mãos foi fazer seu serviço. Adentrou os portões como de costume e se dirigiu para a área de treinamento militar. Ali chegando viu alguns homens encapuzados na entrada de uma torre negra. Dirigiu-se ao local e foi barrado por um dos homens que disse:
- Aonde vais rapaz?
- Tenho uma entrega a fazer pessoalmente ao capitão Trinom dos lanceiros.
- Pois deixe aqui a entrega e vá! Ninguém que não seja militar adentra a torre – disse o outro guarda
- Não! – exclamou Pentok -fui ordenado a entregar isso pessoalmente e só assim sairei daqui.
Um dos guardas adentrou a torre e poucos minutos depois, saiu afirmando que Pentok estava autorizado a entrar. O rapaz ficou espantado com a escuridão e o cheiro de umidade dentro do local. Não imaginou que alguém pudesse viver ali. Mas sabia como eram mos militares e deixou passar o pensamento.
Subiu alguns lances de escada e chegou a uma porta. Bateu e recebeu a autorização a entrar. O homem que lhe esperava era grande, muito grande e de uma força descomunal. Careca e com uma cicatriz na testa, o homenzarrão se dirigiu ao rapaz, pegou o embrulho de suas mãos e disse:
- Pode ir agora carteiro, já fez seu serviço.
Pentok não queria discussão, portanto virou-se, mas antes de sair viu encostada em uma das paredes do recinto uma garota de semblante triste. Vestia um vestido escuro, com detalhes dourados. Era linda, mas a tristeza a estava consumindo e isso era visível.
- Saia rapaz, não vou repetir – o capitão repetiu.
Pentok saiu rapidamente desceu as escadas, subiu em seu cavalo e saiu dali às pressas. Durmiu mal aquela noite. Pelo frio e pela perturbação da imagem daquela garota. Para piorar o inverno ficou mais rígido e não havia possibilidades de sair de casa.
Pois o rapaz ficou o resto do inverno pensando na garota. Não conseguia tirá-la da cabeça e havia decidido que voltaria à torre e encontraria uma maneira de tirá-la dali.
Subiu novamente em seu cavalo, e chegou às portas da torre. Tudo estava diferente. Diversos homens treinavam golpes de lança em frente à construção e acima de um pequeno palanque estava o capitão observando. Pentok se dirigiu a ele e esperou que o home lhe autorizasse a subir. Dessa vez o guerreiro tinha o semblante mais calmo e até chegou a sorrir.
Sem delongas, o carteiro lançou:
- Trinom, preciso lhe perguntar, aquela garota, que estava com você na sala da torre. Ela…
- Tiara? O que tem ela?
- Ela, bem… ela parecia triste, muito triste.
- Pois deveria estar, eu matei o irmão dela e trouxe-a como escrava. Mas ela não me agradou. Coloquei-a como servente geral nos aposentos do rei, mas ela ainda me pertence.
- Ela é sua escrava? – Pentok indagou com os olhos marejados
- Sim rapaz, ela é. E continuará sendo. Não adianta fazer qualquer proposta, já recusei as melhores por ela. Com certeza você não poderá fazer uma melhor.
- Eu lhe dou qualquer coisa Trinom. O que você pedir. Não tenho muito dinheiro, mas consigo o que for. Essa mulher está tirando meu sono, não durmo mais em paz desde aquele dia.
- Ahhhh hahaha Está apaixonado carteiro? Um carteiro apaixonado por uma escrava. Ouviram lanceiros!!! Esse homem quer levar com ele uma das minhas escravas. Disse que me consegue o que for. O que vocês me dizem?
Diversos gritos vieram dos guerreiros, mas Pentok não se abateu, nem se assustou. Estava disposto a conseguir o que queria.
- Diga o que quer Trinom e eu buscarei onde for, pelo preço que for.
- Como e mesmo seu nome rapaz?
- Pentok, Pentok Piginos!
- Pois então, já que você está tão disposto a conseguir essa escrava suja Pentok, eu lhe darei sua chance. Na montanha lateral ao castelo, há uma trilha que leva a uma cachoeira. Ali vive um antigo combatente que me venceu uma vez e me levou algo que eu prezo muito, um anel de safira branca. Se conseguir este anel para mim, leva a garota e moedas de ouro para seguir sua vida. Mas já lhe aviso, o homem que vais encontrar é mais forte do que podes suportar e será impossível para você tirar o anel dos dedos dele.
Um fino sinal de felicidade inundou o coração do jovem carteiro. Não lhe importava quão forte era seu adversário ou qual seria a dificuldade em vencê-lo, traria o anel para Trinom e ficaria com Tiara de qualquer maneira. O novo aventureiro subiu em seu cavalo e em poucos minutos estava na entrada da trilha para a cachoeira e bem provavelmente para sua destruição. Adentrou o caminho sem medo no coração e sem cautela na afobação. A estrada era curta e em uma hora, Pentok chegou à cachoeira e pode vislumbrar de longe, próximo a uma casa feita de palha e madeira, um homem de proporções abissais. O grande guerreiro estava de costas para e quebrava algumas toras de madeira – com as mãos – sem uso de machado.
Pentok se dirigiu ao local onde o gigante estava, e antes mesmo de chegar à metade do percurso, viu que o homem que estava de costas agora olhava fixamente para ele, segurando fortemente uma das toras em sua mão, de forma ameaçadora. O rapaz ergueu a mão em sinal de paz, e continuou até chegar de frente para o guerreiro, que agora se mostrava ainda maior do que parecia.
- O que quer aqui rapaz?
- Meu nome e Pentok Piginos. Venho com uma história e um pedido de misericórdia.
- Pois desça do seu cavalo, me conte sua história!
O carteiro desceu e sem cumprimentos pessoais, começou a contar toda série de acontecimentos. Quando mencionou o nome de Trinom, viu um sorriso de satisfação na face do ouvinte. Mas continuou a desenrolar sua epopéia. Ao final de sua história ouviu o homem dizer:
- Pois então Pentok. Você foi mandado aqui para me matar e levar de volta o anel daquele sujo do Trinom, e realmente acredita que fará isso com tamanha facilidade? Direi-lhe duas coisas garoto. A primeira é que a história que sabe é falsa. Eu não derrotei Trinom, na verdade ele nem chegou a lutar comigo, por isso eu tenho o anel. Em sua loucura para chegar ao alto comando dos lanceiros, aquele covarde matou meus dois irmãos, acusando-nos os três de conspiração. Quando eu fui atrás dele, ele enviou uma tropa inteira da guarda particular do rei para me barrar, dizendo que eu não precisava perder a vida e me deu um anel e uma carta de garantia. Enquanto eu estivesse com o anel de safira branca, ele não poderia vir atrás de mim. Pois ocorre que naquela época eu era o chefe dos lanceiros e nenhum dos meus homens colocaria um dedo em mim. Hoje as coisas são diferentes, se ele me tirar essa garantia, virá com todos seus homens para cá e me matará. Tudo isso, porque quando eu era chefe dos lanceiros, não permiti a Trinom uma posição alta de comando, pois sempre percebi sua ganância e crueldade. Mas ele sempre foi muito chegado ao rei e não foi difícil convencer o velho de que éramos traidores. A segunda coisa que lhe direi será que não desgosto de você, mas se tentar ficar com o anel, serei obrigado a matá-lo.
O carteiro sentiu raiva. Percebeu que estava sendo usado, arriscando sua vida por um porco sujo e que era até provável que nem recebesse o que lhe foi prometido. Foi então que teve uma idéia
- Qual seu nome guerreiro? – Pentok perguntou
- Nesmirok
- Pois Nesmirok, você por acaso teme o chefe dos lanceiros do castelo de Glastron.
Trinom estava em seu momento de descanso, deitado na areia em frente à arena de treinamento, pensando em suas vitórias e em suas riquezas. De repente, sentiu o chão tremer e levantou os olhos e viu chegando numa velocidade aterrorizante, o cavalo do carteiro. Fixou os olhos e pode ver que havia duas pessoas montadas. Percebeu tudo em um milissegundo e tentou correr para os portões da torre negra, não houve tempo. Antes mesmo de gritar por socorro foi surpreendido por uma pequena lança que traspassou seu ombro esquerdo levando-o ao chão.
Logo após, foi literalmente erguido do chão pelo gigante Nesmirok. Foi então que o carteiro lhe disse:
- Sabe Trinom, você realmente tinha razão. É impossível tirar o anel dos dedos dele, mas você só disse que queria que eu trouxesse o anel até você. Pois então, o anel está aqui como eu lhe prometi.
O chefe dos lanceiros olhou com ódio para o carteiro. Como podia ter sido vencido por um garoto mirrado e sem nenhum treinamento militar. Voltou seus olhos para Nesmirok, mas não houve tempo para palavras. O grande guerreiro atravessou o peito de Trinom com uma lança dupla, matando-o quase que imediatamente. Em poucos segundos o Pentok e o gigante estavam cercados por diversos lanceiros e arqueiros. Foi então que Nesmirok ergueu o anel e a carta de garantia e bradou:
- Lanceiros de Liechtenstein, hoje vocês voltam a receber ordens de seu antigo comandante. Abram caminho para que o rapaz passe e leve com ele o que ele tanto preza.
Todos fizeram um corredor e Pentok passou por eles com seu cavalo, se dirigiu à torre e subiu correndo as escadarias. Escancarou a porta do aposento e viu Tiara, sentada quieta em uma cadeira. O carteiro se aproximou e ajoelhou-se em frente a garota e olhando em seus olhos lhe disse:
- Sei que não posso lhe dar a vida de seu irmão de volta, mas posso trazer felicidade para os momentos futuros. Estou aqui para levar você comigo, desde o dia em que vim aqui e a vi não consigo dormir pensando na sua solidão e na sua tristeza. Acompanhe-me Tiara e eu prometo que jamais se sentirá sozinha novamente.
A mulher olhou fundo nos olhos do rapaz e sorriu. Levantou-se e abraçou seu salvador. Chegou com sua boca próximo ao ouvido do rapaz e então disse:
- Por quê você demorou tanto?
Lágrimas saíram dos olhos de ambos. Pentok e Tiara saíram da torre e se dirigiram para a casa do carteiro, onde ele cuidou dos ferimentos dela e dos próprios.
Poucos dias após o ocorrido, Pentok recebeu um pequeno pacote em sua casa. Uma caixa pequena e leve. Abriu-a e encontrou ali o anel de safira branca com um bilhete que dizia.
“ Que seja agora apenas um adorno e não mais a chave para a liberdade de alguém “